O Legado da HBO: Entre Cancelamentos Prematuros e Novas Abordagens

O Legado da HBO: Entre Cancelamentos Prematuros e Novas Abordagens

Há décadas, a HBO sustenta um status inabalável como a principal plataforma de televisão de prestígio e redes a cabo premium. As melhores produções originais do canal figuram frequentemente entre as maiores obras televisivas já produzidas, empurrando constantemente os limites da narrativa audiovisual. No entanto, nem todo programa da emissora é um sucesso garantido. Como qualquer empresa de mídia, a HBO já cancelou uma cota justa de séries justamente quando elas começavam a ganhar força. No fim das contas, a televisão é um negócio, e se manter uma série não faz sentido financeiro, a tomada é puxada sem cerimônia.

Independentemente das circunstâncias de bastidores, o fim abrupto de produções promissoras deixa marcas. A lista de vítimas vai desde ambiciosas peças de época até comédias que não alcançaram a audiência esperada, deixando o público sem um desfecho satisfatório. Relembrar esses projetos é essencial para entender a evolução do canal, mesmo enquanto novas apostas, como o recente derivado de Game of Thrones, tentam redefinir o que esperamos do gênero de fantasia.

Joias Perdidas da Comédia e do Drama

Muito antes de Bob Odenkirk imortalizar o vigarista Saul Goodman em Breaking Bad e Better Call Saul, ele já possuía uma sólida base na comédia. Isso ficou evidente em Mr. Show with Bob and David, uma série de esquetes dos anos 90 co-estrelada por David Cross. Exibida entre 1995 e 1998, a produção misturava segmentos pré-gravados e ao vivo, mergulhando no surreal e na sátira. Apesar de ter se tornado um clássico cult e contado com nomes como Jack Black e Sarah Silverman, o programa foi cancelado após mudanças de horário que prejudicaram sua audiência na quarta temporada. Certamente, merecia uma longevidade comparável à de The Larry Sanders Show.

Em um tom completamente diferente, Carnivàle (2003) permanece como uma das obras mais singulares da emissora. Ambientada no auge da Grande Depressão, a trama seguia Ben Hawkins, um curandeiro místico em um circo itinerante, e seu antagonista, o pregador Justin Crowe. A série apostava no estranhamento e na justaposição da miséria dos anos 30 com o realismo mágico. Infelizmente, foi cancelada após duas temporadas em 2005, antes que pudesse explicar sua complexa mitologia, embora ainda valha a pena ser assistida por sua originalidade ímpar.

Outro exemplo notável é Extras, fruto da mente de Ricky Gervais e Stephen Merchant após o fenômeno The Office. A série satirizava a indústria do entretenimento através de Andy Millman, um figurante desesperado pela fama. Com participações hilárias de celebridades interpretando versões distorcidas de si mesmas — incluindo um Patrick Stewart obcecado por roteiros eróticos —, a produção durou apenas duas temporadas. A sensação que fica é de que havia muito mais história para contar sobre as desventuras de Andy e sua amiga Maggie.

Da mesma forma, a ambiciosa Roma sofreu visivelmente com seu tempo de tela truncado. Acompanhando dois soldados romanos durante a queda da República e a ascensão do Império, a série teve que comprimir eventos históricos massivos quando ficou claro que não passaria da segunda temporada.

Uma Nova Esperança em Westeros

Enquanto lamentamos o que foi perdido, a HBO continua a expandir seus horizontes, e a estreia de O Cavaleiro dos Sete Reinos (A Knight of the Seven Kingdoms) prova que a emissora ainda sabe surpreender. Para grande parte do público que acompanhou a saga de Game of Thrones, a expectativa natural para qualquer derivado envolvia violência sombria e traições políticas. Contudo, ao contrário das batalhas sangrentas esperadas, a nova série revela que seu coração pulsa em um ritmo diferente.

No episódio piloto, o momento chave não envolve aço, mas sim uma dança. Quem esperava ver o protagonista, Sor Dunk (Peter Clafey), provando seu valor através da força bruta — afinal, ele é um homem imponente de quase dois metros de altura e carrega uma espada — foi pego de surpresa. A atmosfera em torno dele na cidade de Ashford é de violência, com cavaleiros quebrando ossos em treinos, o que preparava o terreno para um confronto físico típico.

A Dança como Definição de Caráter

Entretanto, a narrativa subverte essa expectativa de forma brilhante. Em vez de enfrentar bandidos ou salvar inocentes na ponta da espada, Dunk se vê em uma situação inusitada na tenda de Sor Lyonel Baratheon. O que começa como uma provocação de Lyonel a um cavaleiro humilde e sem dinheiro, quase evoluindo para uma briga, transforma-se em um convite para o palco de dança.

O que se segue é uma troca jubilosa e cheia de energia, embalada por uma trilha medieval contagiante. Dunk deixa a espada de lado e se entrega aos movimentos, revelando ao espectador quem ele realmente é pela primeira vez. Naquele instante, ele não está preocupado com sobrevivência ou responsabilidades morais; ele está apenas se divertindo. É uma cena que humaniza o personagem de uma forma que nenhuma batalha conseguiria.

Certamente, O Cavaleiro dos Sete Reinos trará ação em seus próximos episódios, que vão ao ar aos domingos. Mas, para um gênero tão atolado na construção de combates mortais, escolher uma dança como ponto de virada diferencia a série não apenas de sua antecessora, mas da fantasia televisiva em geral. É um lembrete refrescante de que, mesmo em uma emissora conhecida por cancelar projetos queridos e focar em negócios, ainda há espaço para o inesperado e para a leveza.