Ocultos nas profundezas: dos vulcões submarinos à engenharia climática

Ocultos nas profundezas: dos vulcões submarinos à engenharia climática

Embora a imagem clássica de um vulcão remeta a montanhas imponentes expelindo fumaça em terra firme, existe um universo geológico submerso de magnitude impressionante que permanece, em grande parte, desconhecido. Os vulcões submarinos, estruturas que emergem do leito oceânico, são protagonistas de uma dinâmica planetária complexa. Eles não apenas moldam a crosta terrestre, mas também oferecem um paralelo fascinante — e um alerta — para as novas propostas científicas de intervenção climática nos oceanos. Enquanto a natureza opera seus próprios ciclos de emissão de gases e minerais, a humanidade estuda agora formas de replicar ou manipular esses processos para mitigar o aquecimento global.

A dinâmica do fogo sob a água

A formação dessas estruturas subaquáticas compartilha princípios com seus “primos” terrestres, mas ocorre em um ambiente radicalmente diferente. A atividade vulcânica concentra-se majoritariamente nas dorsais oceânicas, onde as placas tectônicas se afastam e abrem caminho para a ascensão do magma vindo do manto. O contato imediato da lava com a água fria do oceano provoca uma solidificação rápida, criando formações rochosas singulares conhecidas como “pillow lavas”, ou lavas em almofada, devido à sua aparência arredondada.

Diferentemente das erupções terrestres, influenciadas pela pressão atmosférica, as explosões submarinas são governadas pela esmagadora pressão da água. Isso pode resultar em eventos mais contidos ou, paradoxalmente, em liberações violentas de gases dissolvidos. A detecção desses fenômenos é um desafio logístico que exige sonares avançados e instrumentos sísmicos, uma vez que muitos desses vulcões jamais rompem a superfície para formar ilhas, permanecendo como gigantes silenciosos na escuridão abissal.

Um exemplo monumental dessa grandiosidade oculta é o Tamu Massif. Situado no noroeste do Oceano Pacífico, este colossal vulcão em escudo estende-se por cerca de 310.000 quilômetros quadrados. Embora possua quase quatro quilômetros de altura, seu topo não alcança a superfície. Inicialmente confundido com outras formações geológicas devido à sua vastidão difícil de mapear, o Tamu Massif é hoje reconhecido como o maior vulcão conhecido da Terra, um testemunho da escala massiva da atividade geológica submersa.

Impacto natural e biodiversidade

A importância dessas estruturas vai além da geologia; elas são motores de biodiversidade. As emissões minerais e o calor das aberturas hidrotermais criam o ambiente perfeito para organismos extremófilos. Bactérias e formas de vida únicas prosperam nessas condições de alta pressão e temperatura, oferecendo pistas valiosas até para a astrobiologia. Naturalmente, os vulcões alteram a química da água ao seu redor, enriquecendo-a com nutrientes que sustentam ecossistemas inteiros.

A intervenção humana e a engenharia do clima

É precisamente essa capacidade do oceano de processar carbono e nutrientes que atraiu o olhar de cientistas preocupados com a crise climática. O aquecimento global já intensifica ondas de calor e eleva o nível do mar, e as promessas atuais de redução de emissões podem não ser suficientes para evitar o colapso de certos ecossistemas. Diante dessa realidade, governos e startups exploram a “engenharia climática”, buscando formas de intervir deliberadamente nos processos oceânicos, de maneira análoga a como os vulcões influenciam o ambiente marinho, mas com o objetivo de remover dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.

Um novo estudo, realizado por pesquisadores que dedicaram décadas à climatologia oceânica, analisou os riscos e benefícios dessas intervenções. O oceano já absorve naturalmente cerca de um terço das emissões humanas de carbono, funcionando como um sumidouro vital. As técnicas de Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) visam potencializar essa capacidade.

Métodos biológicos e químicos

As estratégias dividem-se em categorias distintas. As abordagens biológicas buscam estimular a fotossíntese. Técnicas como o cultivo de algas marinhas ou a fertilização dos oceanos com ferro visam impulsionar o crescimento de biomassa que absorva carbono. A ideia é que, ao morrer, essa matéria orgânica afunde e fique retida no leito oceânico por séculos. Outra vertente propõe cultivar plantas em terra e afundá-las em águas profundas e pobres em oxigênio, onde a decomposição é lenta, retardando o retorno do carbono à atmosfera.

Paralelamente, existe a estratégia de aumento da alcalinidade oceânica, que não depende da biologia. Este método envolve adicionar materiais alcalinos à água — como rochas de silicato ou carbonato moídas (calcário ou basalto) —, convertendo quimicamente o CO2 em outras formas de carbono e permitindo que o oceano absorva mais gases da atmosfera. Curiosamente, isso mimetiza processos geológicos naturais de intemperismo.

Uma categoria à parte é a modificação da radiação solar. Funcionando como um “guarda-sol”, essa técnica injetaria partículas na atmosfera para refletir a luz solar, replicando o resfriamento observado após grandes erupções vulcânicas. Embora prometa resultados rápidos na redução da temperatura, ela apenas mascara os efeitos do CO2, sem resolver a raiz do problema.

Riscos e o delicado equilíbrio marinho

A manipulação deliberada dos oceanos carrega riscos significativos, comparáveis às perturbações naturais, mas potencialmente mais danosos se mal calculados. A acidificação dos oceanos é uma preocupação central. O CO2 dissolvido gera ácido, enfraquecendo conchas de ostras e corais. Enquanto a adição de minerais alcalinos poderia teoricamente combater essa acidez, os métodos biológicos são mais imprevisíveis: o efeito na acidez depende de onde a biomassa cresce e onde se decompõe.

Além disso, há o risco de desequilíbrio nutricional. O oceano é um sistema interconectado. Fertilizar uma região para estimular o crescimento de algas pode esgotar nutrientes essenciais que as correntes levariam para outras áreas, sufocando a vida marinha em zonas profundas ou prejudicando a pesca a milhares de quilômetros de distância.

Assim como a descoberta do Tamu Massif revelou o quanto ainda desconhecemos sobre a geologia submarina, a pesquisa sobre engenharia climática mostra que, embora existam caminhos promissores para mitigar o aquecimento global, nenhuma intervenção é isenta de consequências. O desafio agora é entender profundamente esses riscos antes que tais tecnologias sejam aplicadas em larga escala, garantindo que a tentativa de salvar o clima não comprometa irremediavelmente a base da segurança alimentar global e a saúde dos oceanos.